Sensação Térmica

Sensação Térmica acompanha a viagem de carro de dois colegas que mal se conhecem. Após serem jogados para fora da estrada por outro veículo, eles ficam presos no meio da neve. Para tentar voltar, precisam enfrentar o frio intenso e uma sucessão de acontecimentos cada vez mais estranhos que começam a se manifestar ao redor.

Aqui, vemos uma Emily Blunt bem no início da carreira, ainda naquela fase em que topava projetos variados, e isso dá ao filme um charme curioso. Desde os primeiros minutos, o grau de paranoia já é instaurado. A experiência de assistir lembra algo próximo de Noites Brutais: a protagonista feminina, um cara esquisitão que você não sabe se pode confiar e um cenário isolado que força essa aproximação, enquanto o terror se instala de vez.

É daqueles filmes pouco comentados eu, pelo menos, nunca tinha ouvido falar e acaba sendo uma surpresa interessante. Ao mesmo tempo, ele carrega fortemente uma carinha do terror dos anos 2000, lembrando outro terror: Pânico na Neve

A protagonista é confrontativa e isso funciona a favor do filme. Você não fica sendo arrastado apenas pelo mistério. Em menos de meia hora, muitas perguntas já começam a ser respondidas (em vez de o roteiro só empilhar dúvidas para, talvez, explicar tudo no final).

O clima é sustentado por suspeitas constantes, pelo desespero e pela desconfiança mútua, mesmo que penda mais para o lado de desconfiança nossa sobre o rapaz. Ainda assim, o filme não escapa de um problema recorrente: a dependência excessiva de coincidências e de planos que dão errado. Como resultado, em alguns momentos, isso enfraquece a tensão.

Um recurso interessante é o horário em tela cheia, marcando a passagem do tempo como uma espécie de contagem regressiva até o amanhecer o momento em que, teoricamente, a salvação poderia chegar. Em termos de ritmo, é esse investimento (e essa esperança) que te mantém preso ao filme, de você ficar na torcida por eles, sabendo que “falta pouco” para a grande dúvida ser sanada: será que ambos sobrevivem até o final?

Driblando spoilers, há também um fator de surrealismo mais moderno, que aparece tanto na imaginação quanto no sobrenatural. O filme oscila entre algo que poderia ser real e uma fantasia mais abstrata, praticamente inexplicável. Isso força o espectador a assistir ativamente e se apoiar nas explicações que o próprio filme oferece, tentando montar algum sentido a partir delas.

Ao mesmo tempo, essa escolha mina aos poucos a confiança de quem está assistindo. Há cenas em que você não sabe se nada daquilo é real e, apesar de o filme brincar com essa ideia, esse tipo de perspectiva não confiável soa como o artifício mais fraco do terror. Mesmo que isso represente uma evolução psicológica da protagonista, acaba parecendo tempo desperdiçado.

No fim, Sensação Térmica soa como um conto de terror com boas ideias e atmosfera eficiente, mas que parece desistir de amarrar melhor o próprio desfecho. Ainda assim, é uma experiência curiosa, especialmente para quem gosta desse terror mais frio com o perdão do trocadilho.