O puro terror francês queer com vampiros. Em Rosas de Sangue, acompanhamos a jovem Carmilla, que afirma se parecer muito com Millarca, a mulher retratada em um quadro e descrita como “a única vampira que escapou” das perseguições de décadas atrás. Essa semelhança vira motivo de fascínio e, ao mesmo tempo, de incômodo: sua paixão é constantemente questionada, e a ideia de envelhecer se transforma em alvo de escárnio.
Após um acidente com fogos de artifício, escombros históricos vêm à tona e Carmilla descobre o túmulo da vampira ali enterrada. A partir daí, a narrativa sugere uma conversão (ou talvez possessão?) em uma investida sáfica e sanguinolenta.
Com apenas uma hora e vinte de duração, Rosas de Sangue é um filme curto, mas carregado de ideias. Ele aborda o patriarcado e questiona a submissão feminina, costurando esses temas com a mitologia vampírica.
De início, temos a roupagem inusitada: um grupo de ricaços sentados em roda, contando histórias de vampiros, numa camada extra de abstração. Essa elite acredita ter “superado” o medo dos vampiros (fazendo questão de os diferenciar de morcegos, que nem habitam a região), e o grande interesse passa a ser entender o quanto o filme pretende se afastar (ou não) do cânone: quais são as motivações dessas criaturas, quais as fraquezas e o que muda nesse imaginário tão conhecido.
Após a aparente transformação, Carmilla começa a deixar escapar traços de um comportamento vampiresco. A conexão com os animais surge primeiro: eles a tratam com hostilidade, exibindo medo puro no olhar. Mas o deslize mais evidente está na roupagem sáfica de suas interações com outras mulheres, seja na postura, nas perguntas, no contato físico ou no cuidado excessivo. O estoicismo inicial aos poucos se torna ameaça; aquelas que confiaram nela em um primeiro momento passam a temê-la da mesma forma que os animais.
Visualmente, o filme é um deleite. A atmosfera e a iluminação colorida remetem diretamente ao giallo, com um provável processo de restauração que faz justiça à riqueza de detalhes. Reflexos e enquadramentos ajudam a contar a história e a sinalizar perigo. O sangue é de um vermelho vivo, o vestido branco da protagonista é sempre o ponto mais claro em cena e os objetos de madeira exibem um marrom intenso, quase recém-polido. As imagens mais abstratas, especialmente na única sequência totalmente fantasiosa e alegórica, são trabalhadas com extremo cuidado: tudo se resume a preto, branco e vermelho.
Ainda assim, a melancolia, a frieza e a brutalidade da conclusão tendem a impactar negativamente quem investiu emocionalmente na protagonista. Não há um clímax tradicional: o filme opta por um corte seco para as imagens finais, deixando uma sensação abrupta de encerramento.
Rosas de Sangue compartilha a mesma base literária de outro filme (também disponível no Darkflix), o italiano Carmilla – A Vampira de Karnstein, o que reforça seu diálogo direto com uma tradição vampírica clássica, ainda que escolha caminhos próprios, por vezes desconfortáveis, até os últimos minutos.

