Rosário

Rosário é um filme de terror que não tenta reinventar o gênero… e talvez por isso funcione tão bem. Com uma premissa simples, ambientação claustrofóbica e atmosfera que vai gradualmente te tensionando, ele é uma grata surpresa para quem pretende embarcar sem grandes expectativas.

A história acompanha uma jovem que, em meio a uma nevasca histórica, precisa ir até o apartamento da avó (que está morta) em Nova York. Ao chegar, descobre que, por conta do clima extremo, a ambulância só poderá buscá-la no dia seguinte. Em outras palavras: ela vai precisar passar a noite com o cadáver. Isolada, sem poder sair e cercada por objetos e memórias que vão revelando segredos da família, ela começa a ser assombrada por presenças estranhas e pela crescente dúvida: o que realmente está acontecendo?

O diretor, em seu primeiro longa depois de uma carreira focada em curtas, assume a limitação do cenário como um trunfo. O filme lembra A Morte do Demônio não só pela ambientação fechada e pela sensação de aprisionamento, mas por elementos visuais que flertam com o oculto. Tem até o livro sinistro de rituais (necronomicon!) e aquela sensação constante de que algo acabou de se mexer no fundo do quadro. A tensão cresce a cada cena, com o espectador acompanhando tudo pelos olhos da protagonista — o que aumenta o impacto da paranoia, ao mesmo tempo que a gente consiga “ver” o que a rodeia naquele apartamento, até mais do que ela própria.

Ainda que a história não seja complexa ou cheia de reviravoltas, como costumam ser os filmes da Blumhouse e da A24, Rosário acerta ao manter o foco: o terror é íntimo, psicológico e muitas vezes sutil. A direção aproveita bem o espaço pequeno, a iluminação baixa e o silêncio cortante para construir um suspense que não depende de jumpscares óbvios, e sim da sugestão de terror e do mais puro desconforto.

Está longe de ser o melhor terror do ano, nem pretende ser. Mas é um filme enxuto e que entrega exatamente o que promete. Com as comparações previamente feitas a Evil Dead, relembro que há um grau de expectativa estabelecido pela escala do filme, deixando em evidência cada tropo que ele quer tocar, sem aplicar uma identidade às dezenas de fórmulas. Então, sem grandes pretensões, Rosário pode te ganhar justamente por isso: ele também não tenta fazer mais do que precisa. É daqueles terrores que se aproveitam do fator surpresa, aquela descoberta ao acaso, funcionando melhor do que muita superprodução vendida à exaustão.

Apesar da confusa distribuição da Imagem Filmes aqui no Brasil — a estreia de Rosário foi adiada em mais de dois meses, indo para 28 de agosto —, a dica é: se puder, entre no cinema às cegas, sem conferir o que o trailer entrega. A surpresa vai valer a pena.