O Royal Hotel

O Royal Hotel funciona como um estudo de tensão constante, mais interessado em transmitir sensação do que, necessariamente, em contar uma história convencional. A diretora e roteirista Kitty Green (após The Assistant, também protagonizado por Julia Garner), troca os escritórios de Hollywood por um bar imundo no interior australiano, mas mantém o mesmo olhar clínico para o desconforto feminino em ambientes predominantemente masculinos. Garner e Jessica Henwick dão corpo a duas viajantes americanas presas em um trabalho temporário que rapidamente se transforma num campo minado de olhares, insinuações e de ameaças veladas.

A diretora constrói uma verdadeira panela de pressão com recursos visuais simples: portas que nunca parecem seguras, sombras que se projetam demais, a atmosfera pesada da bebida e o ensurdecedor isolamento. O perigo não é pontual, e sim uma presença que emana, crescendo a cada noite de bar, até transformar cada gole de cerveja num jogo da sorte de ameaças violentas.

Se por um lado isso gera uma experiência visceral (você se sente na pele a ansiedade das protagonistas), por outro o filme acaba pecando pela repetição e pela superficialidade das personagens. O suspense se sustenta a cada situação, mas pouco evolui em termos de arco dramático. As tensões entre ambas as personagens são previsíveis. A resolução final, ainda que simbólica, pode soar “ajeitadinha” e conveniente demais.

Em suma, Green flerta com o horror e até com o exploitation australiano, mas não mergulha de vez no delírio (ou no grotesco). Ela prefere manter a sobriedade, o que é uma faca de dois gumes: garante coesão temática, mas limita o impacto narrativo. No fim, O Royal Hotel não é tanto um thriller regado de twists ou de se justificar pela catarse, e sim um retrato incômodo da permanência da misoginia – e, mais que isso, sobre o ato de suportar o perigo cotidiano do que sobre vencê-lo.