O thriller nacional que se perde entre o charme e o excesso. Em O Agente Secreto, vemos Marcelo, alguém que tenta recomeçar a vida: ele muda de nome e até de profissão, mas não de cidade. Esse acaba sendo um gesto tão ingênuo quanto simbólico ao restante do filme, pois é a tentativa de escapar do passado sem realmente deixá-lo. E com uma carga inesperada de humor, ritmo curioso e tensão que se acumula até um estouro emocional, Kleber Mendonça Filho nos leva a levantar mais perguntas que ativamente nos dar respostas.
Em geral, a trama começa com força, prometendo um mergulho no universo da resistência – se passa ao longo da Ditadura – e do segredo, mas vai se diluindo em repetições e digressões que freiam o impacto. Do início, não negamos o roteiro ser ambicioso, alternando tensão política e dilemas morais, mas a divisão de protagonismo também resulta em uma narrativa dispersa.
Em muitos momentos, O Agente Secreto parece desconfiar do público, mastigando explicações que poderiam ser resolvidas pelo subtexto. Nas cenas longas, os diálogos lembram o melhor (e o mais verborrágico) cinema do começo dos anos 2000, transitando entre Tarantino e Jarmusch, em cenas que você assiste só pelo prazer da conversa. Em vez de criar suspense, o filme se alonga, tentando justificar tudo.
Entre os acertos, temos o elenco. Gabriel Leone está sólido como coadjuvante, se reafirmando no domínio que tem sobre o cinema nacional contemporâneo (que agora também cabe ao streaming, após Senna). Mas é o carisma de Wagner Moura que carrega o filme nas costas, trazendo uma densidade rara, com expressões sutis que falam mais que o texto. São eles que seguram o filme, mesmo quando o roteiro hesita, nos dando todo o gás necessário para acelerar as tensões durante a primeira metade da história.
Tecnicamente, há muito cuidado em tudo: fotografia granulada, paleta amarelada e sombria, uma montagem que prioriza o desconforto e a desconfiança. Como tentativa de criar uma atmosfera de documentação de fatos, temos uma fotografia sóbria, com planos são calculados e uma ambientação convincente. Já a direção aposta num realismo que mistura a crueza do cotidiano brasileiro à tensão de um thriller americano. Ainda assim, há uma falta de coesão entre tons: ora é um drama político, ora um filme de ação/espionagem, ora um ensaio moral sobre paternidade.
O final divide. Ao optarem por um desfecho melancólico e amargo, o filme perde a chance de fechar com a força simbólica que o tema prometia – o que é ainda pior, considerando ser uma história ficcional. Logo, a escolha de abraçar o pessimismo soa mais como capricho do que uma coerência com o que foi contado até então.
O Agente Secreto é recheado de grandes atuações, com direção refinada e a intenção de ser um retrato cru, mas que se estende além da conta e que duvida do próprio poder narrativo. Ainda assim, é um passo ousado no cinema brasileiro: em pleno 2025, há um thriller de espionagem autoral que levou 300 mil brasileiros ao cinema.

