Assim como fez em Blue Moon, Richard Linklater coloca ao público mais um filme sobre mestres em ação e sobre o próprio ato de criar. Em Nouvelle Vague, Linklater conecta acontecimentos do século passado ao cinema do presente, ao acompanhar o nascimento do clássico francês Acossado (de 1960) e, com ele, de toda uma nova forma de fazer cinema.
Nele, acompanhamos o jovem cineasta Jean-Luc Godard, alguém com apenas uma ideia vaga do filme que quer realizar, sustentado por uma equipe que decide apostar nisso. É um retrato claro da confiança coletiva em um sonho ainda mal formulado — essência do pioneirismo da Nouvelle Vague, movimento que não apenas renovou, mas desconstruiu o cinema como ele era conhecido até então.
Linklater faz o que sabe fazer melhor: coloca pessoas para conversar. O filme é educativo sem jamais soar didático demais, revelando o caos da produção, as regras sendo quebradas, a pretensão juvenil e, ao mesmo tempo, a beleza de um movimento que nasce do improviso e da urgência criativa.
Há algo de contagiante nessa abordagem. Nouvelle Vague pode muito bem te fazer gostar mais de Acossado depois da sessão — ou, no mínimo, lançar uma nova luz sobre o filme, indo além do olhar acadêmico de quem apenas estuda os clássicos. A fotografia, deliberadamente pensada para transportar o espectador à época, reforça essa imersão histórica: nos é mostrado em 4:3, em preto e branco, com textura de película.
Lançado nos Estados Unidos pela Netflix em novembro, o filme chega agora aos cinemas brasileiros, sendo um prazer especial para fãs de cinema em geral, justamente por funcionar como um grande retrato do “fazer cinema” à moda antiga. Vao do improviso e da espontaneidade às concessões impostas pelos cortes de orçamento, que moldam diretamente o resultado final.
E funciona mesmo para quem não conhece Godard ou Acossado. O filme se preocupa em contextualizar tudo, inclusive com títulos de introdução que apresentam cada figura célebre envolvida. Quem já conhece (ou ao menos reconhece nomes como Truffaut e Agnès Varda) certamente aproveita ainda mais.
A única recomendação é simples: veja Nouvelle Vague junto de Acossado. A ordem pouco importa; o diálogo entre os dois filmes acontece de qualquer forma.

