Esquema Fenício

Esquema Fenício é, talvez, o filme mais Wes Anderson que Wes Anderson já fez — o que, por si só, resume tanto seus acertos quanto seus deslizes mais característicos. É visualmente impecável, narrativamente excêntrico e emocionalmente distante, tocando em temas de legado, família e de finanças com toda a ironia refinada e meticulosa que se concretizou como marca registrada do diretor.

A trama gira em torno de um magnata excêntrico, odiado por muitos, que decide passar o império adiante para a filha. Porém, ele não deixa de colocar em prática um último plano mirabolante para lucrar (ainda mais). No caminho, nós somos carregados por uma saga de personagens pitorescos, trocas rápidas de cenários e diálogos cuidadosamente “recitados”. Tudo é belo, simétrico, colorido e levemente artificial.

Em comparação aos seus filmes anteriores, Esquema Fenício encontra um equilíbrio interessante: menos disperso que A Crônica Francesa, mais engraçado que Asteroid City, mas ainda longe da energia vibrante de O Grande Hotel Budapeste. Existe algo de melancólico por trás das cores pastéis e de todos os enquadramentos meticulosos e rígidos, porém, o distanciamento emocional (característica da filmografia do diretor) impede que essa melancolia realmente nos atinja.

Michael Cera, em sua estreia com o diretor, se encaixa surpreendentemente bem no universo “andersoniano”. O elenco, como um todo, brilha, mesmo que a superpopulação de personagens dilua o tempo de tela — nisso incluso aqueles que claramente tinham mais a oferecer. Ainda assim, há espaço para risos e até para uma leve dose de violência e de ação, elementos inusitados que adicionam uma camada curiosa à narrativa.

No fim das contas, Esquema Fenício sabe exatamente o que é: uma auto-homenagem, quase uma paródia consciente do próprio estilo de Wes Anderson. Dentro dessa proposta, ele funciona. É imprevisível nos detalhes, previsível em sua estrutura e, para variar, difícil de sentir.