Era Uma Vez Minha Mãe é uma dramédia francesa baseada em uma história real, que acompanha uma família marroquina cujo filho mais novo nasce com pé torto congênito. A partir daí, o filme constrói seu principal conflito: a mãe, em negação (quase “cética” da deficiência) recusa o tratamento quando ainda seria possível, dando início a uma sequência de consequências que moldam toda a vida deles.
A narrativa acompanha esse jovem ao longo dos anos, passando por diferentes fases, profissões e tentativas de encontrar seu lugar no mundo. Em muitos momentos, o filme se apresenta como um drama direto, apoiado na melancolia dos acontecimentos reais. A comédia surge de forma pontual, muito ligada ao olhar do diretor canadense, que insere um humor que alivia (sem anular) o peso da trajetória.
O que se destaca no processo de fisioterapia e no que beira ser um “ritual ex machina” é o consumo midiático de Sylvie Vartan, cantora francesa. Em determinado momento, o (ainda) garoto é transbordado de músicas, vídeos e revistas dela, agora tratada como uma grande motivação para a melhoraria dele.
O ponto alto está na catarse emocional do protagonista, quando tudo o que foi acumulado ao longo da vida finalmente chega à uma resolução. E é interessante como o filme não suaviza suas relações: há uma sinceridade quase desconfortável nas atitudes dele com a mãe, muitas vezes grosseiras, que transitam entre a falta de compreensão e a dificuldade de aceitar as decisões que definiram sua vida.
A estrutura da narrativa é fragmentada, quase como capítulos – ainda que não haja divisões explícitas. Também não existem marcações claras de tempo, como títulos indicando anos ou períodos. Isso cria dois efeitos simultâneos: por um lado, o espectador precisa montar o quebra-cabeça, acompanhando ativamente os saltos temporais; por outro, essa fluidez reforça o tom de memória, como se estivéssemos dentro de um relato autobiográfico, guiado inclusive por narração em off.
O título original, Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan, revela melhor a proposta ao dividir os três pilares da vida do protagonista: a mãe, Deus e a cantora Sylvie Vartan. Curiosamente, no filme, a religião aparece apenas como pano de fundo, muito menos desenvolvida do que os outros dois elementos – algo que talvez funcione melhor no livro que originou a história, preenchendo lacunas que aqui ficam apenas sugeridas.
Aliás, diferente de muitas biografias adaptadas, essa história não é amplamente documentada ou difundida. Há pouca informação disponível, até mesmo em francês, o que faz com que a experiência do espectador comece e termine essencialmente no próprio filme (ou, no máximo, no livro original, que também não teve grande circulação internacional, sem tradução para outro idioma).
E talvez a maior curiosidade esteja justamente na tradução do título. Era Uma Vez Minha Mãe muda completamente a primeira impressão: reforça que essa é, antes de tudo, uma história sobre ela. Sobre suas escolhas, suas crenças e o impacto que tiveram – direto e irreversível! – na vida do filho.

