Davi

Davi: Nasce Um Rei é uma animação onde acompanhamos a jornada do jovem pastor que, em meio a opressão, guerras e jogos de poder, descobre na música (e na fé) um caminho para desafiar as forças maiores que ele. Entre batalhas, saltos temporais e um mundo onde o ato de cantar oscila entre dom, expressão interior e um verdadeiro fardo, o filme revisita a origem do mito bíblico sob lente grandiosa, que ganha evidência nas paisagens vivas e escolhas interessantes de fotografia. Mais que um relato (readaptado) dos feitos heroicos, o filme se carrega de uma reflexão sobre liderança, destino e em como há uma fronteira frágil entre devoção e submissão. Em um ritmo ligeiramente irregular, temos então o nascimento de um rei forjado não só pela força, mas por ele acreditar que vontade e fé podem superar a brutalidade.

Produzido pelo serviço de streaming religioso Angel, que passou por um rebrand em 2021 e foi batizado de “Angel Studios”, este é um projeto que nasce originalmente como uma série de cinco episódios, dedicada a narrar a trajetória do jovem Davi. A estratégia, porém, foi além: um longa-metragem, atuando como sequência direta da série, seria feito e teria lançamento internacional no Natal de 2025 – algo que a própria plataforma reforça ao anunciar que estará “nos cinemas de todo o mundo em 19 de dezembro”. No fim, tivemos a estreia levemente adiada para janeiro deste ano.

Visualmente, o filme impressiona. As texturas extremamente fotorrealistas (especialmente nos tecidos e nas paisagens naturais), criam uma materialidade rica para o mundo. Golias, por sua vez, é retratado como uma presença verdadeiramente monstruosa, uma força quase mitológica digna de super-vilão moderno, em contraste direto com a fragilidade de Davi. O conflito central, no que viria a ser o primeiro ato do filme, se constrói em torno da coragem dos despreparados – ainda que essa ideia soe contraintuitiva no campo de batalha, onde palavras e fé poderiam muito bem serem esmagadas por força bruta.

O longa se ancora na ideia de que “os fios nascem para tecer”, e acaba adotando uma lógica curiosa próxima à de um musical. Em certos momentos, os personagens parecem cantar como se isso fosse parte natural daquele universo; em outros, a música parece existir apenas na percepção de Davi (quase como um devaneio interno). O próprio filme tensiona essa ambiguidade, na cena em que um personagem interrompe a cantoria para perguntar: “por que você está cantando? Vá trabalhar!”. Há até a sugestão de que a música de Davi possa se tornar uma espécie de “maldição”, uma ferramenta também ambígua, fazendo nosso protagonista interpretá-la tanto como dom como sua voz sendo um peso.

Narrativamente, a estrutura é tudo menos convencional. E nem sempre de forma positiva. Grande parte dos aprendizados e do arco emocional de Davi são condensados em cerca de meia hora. A disputa por poder, os opressores, a tensão política e a clássica ideia de que a “vontade supera a força” surgem com um timing estranho, como se os momentos de maior impacto acontecessem fora do lugar. Um salto temporal, já denunciado no trailer, freia o ritmo e escancara uma quebra que talvez funcionasse melhor se o filme assumisse uma divisão clara em capítulos, à lá blockbusters épicos – mas entendo como pode não ser eficaz com público infantil.

O tom da história é violento e traiçoeiro, mas as lições que surgem deste caminho acabam soando bem problemáticas. A exaltação da gentileza e da “fidelidade absoluta ao líder”, levadas a esse extremo, não parecem nem saudáveis e nem eficazes. E somamos isso ao excesso de frases de efeito e de monólogos (ora feitos olhando para o céu), que reforçam o caráter de uma adaptação bíblica fria, incapaz de se desprender completamente do texto original para conseguir encontrar uma voz mais cinematográfica.

E o combate, quando finalmente acontece, é abruptamente cortado. Da mesma maneira que muitas escolhas cinematográficas podem ser explicadas pelo argumento de Davi ser um filme infantil, também é possível argumentar que a intenção seja evitar a glorificação da violência. Em contradição, no clímax de ação, temos um último frame antes do corte (com o encontro iminente das armas), que transforma essa escolha de “não violência”, nem mesmo sugerida, em algo totalmente contraditório.

Em termos de dublagem brasileira, temos nomes de peso. João Vitor Mafra – jovem em ascensão, sendo a voz de Simba jovem em Rei Leão e dezenas de animes de renome, como DB: Daima e My Hero Academia – é nosso protagonista Davi. Golias, por outro lado, é vivido por Francisco Júnior, igualmente um Golias da dublagem: Sam Wilson/Falcão, Aquaman, policial Powell em Stranger Things e diversos personagens em animes, como Sukuna (Jujutsu Kaisen), Grimmjow (Bleach) e Dio (em JoJo). Todos com bom alcance vocal, infelizmente precisando trabalhar com letras desconjuntadas e melodias arrítmicas.

Por fim, o filme se encerra de maneira inusitada. O diretor fala conosco em transmitir a missão do estúdio: fazer com que mais jovens vejam Davi nos cinemas. Então, um QR Code é mostrado na tela, que te leva diretamente à página da Angel Studios, já com cinco ingressos pré-selecionados no carrinho de compras. O total da doação? 75 dólares. É um desfecho que encapsula tanto a proposta espiritual do projeto quanto sobre sua estratégia comercial; um gesto que dissolve qualquer sutileza restante na jornada que acompanhamos, transformando a experiência cinematográfica num chamado direto à conversão do espectador em consumidor – que agora irá encerrar o filme não com reflexão, mas com a ideia de transação.