Misturando fato e ficção, A Vida Secreta de Meus Três Homens apresenta a história de três homens, hoje fantasmas, que ajudaram a criar a cineasta Letícia Simões. Cada um deles carrega uma posição muito distinta, seja da vida deles ou da própria história do Brasil: um é apoiador da ditadura, outro é um jovem movido por ideais revolucionários e o terceiro é um fotógrafo negro e gay, vivendo o luto. A partir dessas presenças, o filme constrói um retrato extremamente fragmentado de memórias, nos contando sobre o papel do legado.
A proposta formal é bastante experimental. O filme transita entre teatro, documentário e metalinguagem, com momentos em que os próprios fantasmas parecem reconhecer sua condição, vez ou outra, até o processo de gravação do longa. As transições são frequentemente conduzidas por poemas, criando pausas sensoriais que conectam as partes da narrativa.
O resultado funciona como uma biografia em formato de quebra-cabeça. As peças vão sendo reveladas aos poucos, convidando o espectador a montar a imagem final enquanto reflete sobre o peso dessas histórias pessoais. Ao mesmo tempo, o filme provoca uma pergunta inevitável: o que existe escondido nas histórias das nossas próprias famílias? O passado retratado aqui não é distante; ele pertence a gerações muito próximas, carregando marcas profundas.
Existe também um retrato da vida no interior do Brasil, com elementos de formação cultural e religiosa que atravessam as memórias de Três Homens. Catequeses, tradições e valores aparecem como pano de fundo de histórias que falam de vida e morte, sobre coragem e medo, sempre parecendo precisar da afirmação de individualidade. Em meio a isso, o filme ainda encontra espaço para tangentes curiosas (como menções ao Lampião) que ampliam a sensação de um Brasil múltiplo, algumas vezes contraditório.
A montagem é forte, marcada por uma frieza na hora de lidar com os fatos, como se deixasse que o peso das histórias falasse por si. Ao mesmo tempo, visualmente, o filme é leve, discreto. É um trabalho que pede mais escuta do que contemplação, um filme para se ouvir com atenção, absorvendo as camadas de memória, da voz e da poesia que atravessam cada fragmento de Três Homens.

