A Lenda de Ochi é o tipo de filme que parece saído uma fita VHS perdida dos anos 80… e isso é tanto seu maior charme quanto seu maior desafio. Com uma criatura fofa, paisagens de tirar o fôlego e uma trama que mistura fantasia com temas de família, o longa tenta capturar o espírito nostálgico de clássicos oitentistas (como E.T., O Cristal Encantado e A História Sem Fim), mas tropeça ao tentar encontrar um público claro para sua proposta.
A história acompanha uma jovem que vive num mundo onde criaturas são caçadas por humanos. Quando ela encontra uma dessas criaturas feridas, ela decide ajudá-la a voltar para casa, enfrentando todos os desafios que envolvem tanto a crueldade dos homens quanto os próprios “fantasmas” da família dela.
O filme passa por momentos de introspecção e toca sobre temas como justiça, perdão, respeito e identidade, com uma abordagem sensível, mas (impressionantemente) sem se aprofundar muito no emocional dos personagens humanos.
O grande destaque está no visual. Gravado em cenários naturais e com um impressionante trabalho de efeitos práticos (marionetes, cenários práticos e parcialmente pintados à mão) misturado a animações de computador, o filme conquista pela estética. A proposta é deliberadamente retrô, remetendo à tecnologia cinematográfica dos anos 70 e 80. Todo esse cuidado técnico é, de fato, o que mais impressiona — levando até à exibição em festivais.
O problema começa quando se percebe que o filme depende demais da estética nostálgica. As referências são tão evidentes (e tantas!) que ele, por vezes, parece mais uma homenagem do que uma obra com identidade própria. E, apesar da direção cuidadosa e do visual envolvente, você termina esta aventura sentindo uma falta da alma, do coração, coisa que tanto conquistou nos filmes que o inspiram.
Além disso, o tom é confuso: não é exatamente um filme infantil (há cenas violentas e um clima sombrio), mas também não é um drama adulto mega profundo. Para nostálgicos, pode soar derivado demais; para o público jovem, pode parecer lento e emocionalmente distante. Até os diálogos, com interpretações neutras e mecânicas, contribuem para essa sensação de frieza, o que não deveria nem estar em jogo se compararmos ao ar cômico dos diálogos de suas inspirações (E.T. e Cristal Encantado em destaque).
Ainda assim, A Lenda de Ochi tem seus méritos. O design da criatura principal é encantador e há jornada que lembra muito as “fantasias de figura paterna” tão recentes na cultura pop, como Mandaloriano, Sweet Tooth, The Last of Us, Como Treinar o Seu Dragão e Totoro. Porém, deixam claro que aqui o foco não é merchandising. Da mesma maneira que a narrativa em si, a ambientação é imersiva o suficiente pra garantir uma boa sessão, contanto que o espectador esteja mais interessado na experiência estética e na viagem visual do que numa narrativa forte e/ou envolvente.
Resume-se em: é um filme bonito de se ver e difícil de sentir. Para quem quer revisitar um certo espírito dos anos 80 com olhos modernos, aceitando a jornada mais como contemplação do que emoção, vale ser visto.

