As Duas Faces da Felicidade (cujo título original é simplesmente “A Felicidade”) começa como um retrato idílico da vida familiar. Passeios ao ar livre, momentos de calor humano, a beleza da natureza e uma fotografia que parece saída de uma pintura do século XIX. Tudo é vibrante, harmonioso e luminoso. Mas, como a própria proposta sugere, existe algo escondido sob essa superfície.
A restauração disponível atualmente é um espetáculo por si só – versão assistida, na Mubi. As cores parecem ter sido recuperadas com um cuidado impressionante. O azul salta aos olhos em praticamente toda cena em que aparece; vermelhos e verdes ganham uma intensidade quase artificial de tão vivos. Tirando algumas transições que denunciam o material original, o “fade analógico” da época, o novo escaneamento valoriza cada detalhe da fotografia e transforma o filme em uma experiência visual espetacular.
O olhar dos filhos é um dos elementos mais reveladores, para entendermos Duas Faces em sua essência. Há uma simplicidade quase inocente na forma como enxergam pai e mãe, sem perceber as tensões que atravessam aquela família. É justamente nesse contraste entre aparência e realidade que Agnès Varda constrói a sátira social.
O filme fala sobre relacionamentos através de alegorias constantes. Existe ironia nos olhares, nos gestos e nas escolhas de enquadramento. Em vários momentos, parece que a diretora-autora está provocando os personagens e a própria ideia artística de felicidade que o cinema (e a sociedade!) insiste em vender.
No centro de tudo está um protagonista difícil de admirar. Sua visão de amor é profundamente particular, quase desconcertante. Para ele, felicidade não parece ser uma escolha exclusiva ou uma construção compartilhada; ela pode existir em duplicidade, sem que isso represente um conflito moral. O filme acompanha essa lógica com tamanha naturalidade que o desconforto acaba recaindo completamente em quem assiste.
Talvez o exemplo mais forte disso esteja na forma como o adultério é retratado. Não há grandes explosões dramáticas, nem humor para aliviar a situação. Uma cena de traição é imediatamente seguida por um momento banal da vida doméstica. A felicidade (no mínimo nojenta) estampada no rosto dele dentro da própria casa transforma algo potencialmente devastador em uma situação tratada com assustadora trivialidade. A normalização cria uma atmosfera perturbadora, perto do desconfortável.
Curiosamente, a montagem contribui para essa sensação. Em diversos momentos, o filme parece editado como um longa de terror: ação e reação, cortes secos, mudanças rápidas de perspectiva. O ritmo sugere constantemente que algo está errado, mesmo quando as imagens mostram apenas beleza e tranquilidade.
A ironia presente no olhar das personagens femininas se torna cada vez mais importante conforme a narrativa avança. O filme nunca abandona a delicadeza visual delas, mas a utiliza para construir uma crítica afiada sobre os papéis sociais, sobre as expectativas românticas e a forma como determinadas estruturas favorecem a visão masculina da felicidade.
É impossível ignorar também a coragem de Varda. Inserido no contexto da new wave francesa, o filme dialoga diretamente com questões feministas sem transformar o discurso em algo panfletário. Pelo contrário: a crítica surge das ações e dos silêncios. E talvez seja por isso que sua conclusão continue tão impactante. Duas Faces constrói expectativas específicas sobre como essa história “deveria” terminar, apenas para seguir um caminho muito mais provocador. Há uma coragem enorme em encerrar a narrativa da forma como Varda escolhe, mantendo intacta a ambiguidade que atravessa toda a obra.
As Duas Faces da Felicidade funciona quase como uma armadilha visual. Tudo é belo, acolhedor e cheio de vida. Mas, por trás das cores vibrantes, dos campos ensolarados e dos retratos da família, existe uma reflexão amarga sobre o egoísmo (e sobre a felicidade), nas estruturas invisíveis que sustentam cada uma dessas ideias.

