“Chamado da morte” é um daqueles tropos de terror (quase um subgênero) facilmente reinventáveis, a cada geração. Em Uma Chamada Perdida, ele ganha uma roupagem tecnológica: as vítimas recebem uma mensagem na caixa postal contendo a data e a hora exatas de sua morte. E, mais perturbador ainda, a gravação vem da própria voz delas, registrando seus últimos segundos de vida.
A premissa lembra um cruzamento entre Premonição e os terrores tecnológicos dos anos 2000. A grande dúvida que acompanha a narrativa é justamente se a morte pode ser driblada. Os personagens tentam interpretar sinais, antecipar acontecimentos e encontrar padrões, numa corrida contra o deadline (literalmente).
Embora pareça uma ideia original, o filme é um remake americano de um longa japonês homônimo, que por sua vez foi adaptado de um romance escrito pelo próprio roteirista da versão original. Talvez por passar por tantas adaptações e releituras, o resultado tenha sido recebido com certa hostilidade na época. Ainda assim, existe mais mérito no filme do que sua reputação sugere.
Visualmente, ele bebe bastante da estética que dominou o terror oriental do início dos anos 2000. Há ecos claros de O Chamado e O Grito em suas aparições sobrenaturais, presenças inquietantes e momentos em que o inexplicável toma conta da cena. Ao mesmo tempo, o remake abraça totalmente a identidade do terror americano da época: jovens em festas, romances surgindo em meio ao caos, sustos frequentes e uma mistura nem sempre equilibrada entre suspense e humor acidental.
As mortes são, sem dúvida, o principal atrativo do longa. Cada uma surge cercada de expectativa e construída quase como uma armadilha inevitável. Em compensação, muitos personagens acabam funcionando mais como peças descartáveis do que como indivíduos plenamente desenvolvidos. Com exceção da protagonista (e de alguns investigadores envolvidos no caso), a maioria dos personagens recebe pouco tempo para existir além da própria morte anunciada.
O roteiro também não economiza nas reviravoltas. Entre investigações, traumas familiares, manifestações sobrenaturais e até um exorcismo inesperado, a trama acumula elementos suficientes para parecer vários filmes diferentes costurados em um só. Curiosamente, essa mistura funciona melhor do que deveria. Existe uma subtrama envolvendo eventos traumáticos do passado que acaba justificando boa parte do protagonismo e dando algum peso emocional à investigação.
Outro aspecto interessante é a forma como o filme utiliza a tecnologia da época. Rastreamento de chamadas, pesquisas online, caixas postais e toques de celular se tornam peças fundamentais da narrativa. O ringtone compartilhado pelas vítimas, parecido com o som de uma caixinha de música, vira quase que um símbolo recorrente da maldição – de tabela, isso ajuda a construir a identidade do filme, ainda que seja derivativo de seus semelhantes do gênero/época.
O maior problema está justamente na reta final. Depois de construir mistérios ao longo de toda a duração, o roteiro decide explicar praticamente tudo de uma vez. Símbolos e elementos visuais que antes despertavam curiosidade são despejados em uma longa sequência expositiva que tenta conectar cada detalhe da maldição. É um encerramento que troca o mistério pela explicação e perde parte da força que sustentava o filme até então.
Ainda assim, a reação extremamente negativa que cercou Uma Chamada Perdida parece desproporcional. O filme foi eleito um dos piores de 2008 e acumulou uma infame aprovação de 0% entre críticos, mas essa fama acaba ignorando o quanto ele funciona em seus pequenos momentos. As mortes são criativas e a premissa continua eficaz, com toda a atmosfera de paranoia se mantendo durante boa parte de sua duração. Se existe uma falha realmente decisiva, ela está concentrada no desfecho, não no caminho.
Ainda em tom de recomendação, lembro que Uma Chamada Perdida é um terror tipicamente “filho” de sua época, combinando tecnologia, sobrenatural e fatalismo em uma proposta que talvez não entregue tudo o que promete, mas que ainda encontra espaço para divertir e sustentar sua tensão – muito além da reputação que carrega.

