Enzo

Enzo é um drama francês que acompanha um jovem de família abastada que, para surpresa de todos ao seu redor, decide abandonar o caminho esperado e trabalhar como pedreiro. Filho de uma estrutura familiar sólida (quase um “alicerce” social ao seu redor, com perdão do trocadilho) Enzo parece querer justamente se afastar dessa base estável: abandona os estudos, vive à sombra do irmão que parece seguir o roteiro “adequado” da vida e passa boa parte do filme tentando descobrir qual é, afinal, sua verdadeira vocação.

Acima de tudo, porém, o filme gira em torno do despertar sexual de Enzo e do seu desejo de experimentar algo que rompa com a apatia de uma vida que parece ser confortável demais. Há uma inquietação em sua rotina pacata, que lembra o impulso de Clube da Luta: quando tudo parece excessivamente estável, surge a necessidade quase irracional de criar problemas… ou ao menos conflitos que deem sentido à própria existência.

Na metade de Enzo, o trabalho na construção civil ganha uma dimensão simbólica mais clara. A alvenaria se transforma em metáfora: assim como levantar uma parede exige base, estrutura e paciência, também os relacionamentos e a identidade pessoal precisam ser construídos, uma peça de cada vez, tijolo por tijolo. Enzo ainda não sabe quais pilares quer sustentar, logo, parece testar cada um deles de forma instável.

Esse percurso também revela uma certa alienação típica de utopia moderna. É a sensação de vazio que surge quando todas as necessidades básicas já estão resolvidas. Sem urgências materiais, o personagem busca intensidade em outros lugares, ora em comportamentos que beiram a futilidade, ora na auto-sabotagem. Existe uma apatia generalizada diante de tudo; justamente por querer sentir algo, Enzo acaba flertando com formas de autoflagelo.

Para quem foge da sinopse, o filme reserva ainda um tema secundário inesperado: a guerra na Ucrânia. O conflito aparece como contraponto simbólico, pois há um paralelo nada implícito das ruínas reais de uma guerra, que conversam com as ruínas e estruturas da própria construção civil, ampliando a metáfora sobre o que significa “erguer” ou querer “destruir” algo.

Apesar de todos esses elementos interessantes, Enzo acaba tropeçando em um dos grandes pesadelos do cinema indie, que é o desfecho. O filme parece perder força justamente no momento de concluir o arco do protagonista, com decisões telegrafadas desde a primeira interação com o interesse romântico.

Ainda assim, a obra carrega ecos claros de Me Chame Pelo Seu Nome, pois há uma ambientação europeia cheia de contemplação, a relação marcada pela diferença de idade, um encontro que provoca uma ruptura emocional, a separação que parece inevitável e até mesmo a promessa de que um simples telefonema pode mudar tudo outra vez.