Com forte crítica à dura realidade da Venezuela em colapso, Zafari surge com inspiração em um episódio real ocorrido em um zoológico de Caracas, seguindo um rumo além dos fatos ao construir uma fábula distópica.
No filme, vemos uma família de classe média (mãe, pai e filho) que tenta sobreviver em meio à escassez de água, comida e de energia, enquanto sua rotina se desfaz gradativamente. Desde a primeira cena, o filme se posiciona como um retrato de uma sociedade em desmanche, onde a crise do país consegue não só corroer as estruturas (e o espaço físico, em geral), mas também corromper os indivíduos.
Neste cenário, vemos a personagem da mãe dessa família sendo o mais forte eixo emocional ao espectador. Por meio dela, vemos como há um peso diferenciado para o papel feminino em meio ao contexto que beira uma guerra civil: a realidade brutal em meio à miséria, que as empurra a situações extremas de vulnerabilidade.
O contraste entre ela e o marido revela visões diferentes diante deste colapso: enquanto ele reage com medo e hostilidade, passando por fases que ele próprio reconhece serem distintas (e que “justificariam” seu comportamento), ela busca estratégias de sobrevivência no condomínio onde vivem, precisando fortalecer seu relacionamento com a rede de vizinhos.
A chegada do hipopótamo Zafari ao zoológico em frente ao apartamento central do longa, bem como da família responsável por cuidar do animal, intensifica as tensões já existentes. A partir de certo ponto, Zafari passa a propor uma inversão cruel dos valores: num país onde pessoas passam fome, um animal confinado é capaz de receber mais atenção do que muitos dos seres humanos.
Porém, por mais fortes que sejam as metáforas e todos os comentários políticos que se erguem, nem tudo é sustentado ao decorrer do filme. Há inconsistências fortes aos núcleos e relacionamentos, o que impressiona muito ao pensarmos em retrospecto sobre a obra, visto que só há objetivamente dois protagonistas. O próprio hipopótamo parece ser título por acidente, pois é subutilizado dentro da narrativa. Vez ou outra, revelações que sugerem tom de reviravolta (como a real origem dos alimentos que estão no prato deles) não têm o peso que se supõe ser o planejado.
Tecnicamente, o filme encontra sua maior força na fotografia crua, totalmente intimista, que traduz em imagens a sensação de calor e do abandono. São tons terrosos, luzes naturais, numa composição que mostra todo o cuidado, a construir um universo opressivo e coerente com toda a proposta. Apostar na computação gráfica foi a única saída para a maioria das cenas, mas há irregularidades em excesso – como recortes de background, corpos bidimensionais e efeitos violentos que te desconectam da imersão. A dificuldade do roteiro em aprofundar tanto certos personagens como os próprios conflitos em que se encontram acaba prejudicando o impacto emocional, tornando algumas situações rasas ou pouco críveis (mesmo dentro da realidade “paralela” distópica, criada).
No fim, Zafari é uma obra de intenções políticas muito claras, com ambição em todo o seu simbolismo, mas há enormes limitações estruturais. A ideia tem toda sua potência interpretativa, mas o ritmo peca; o comentário social é mais relevante que nunca, mas o desenvolvimento dos dramas não acompanha a força de todo o conceito. Resta somente a mensagem amarga de que, em tempos de crise extrema, todos voltaríamos a comportamentos primitivos: a barbárie não é exceção, mas uma possibilidade constante.

