Um terror psicológico que se apresenta como um meet cute torto desde o primeiro minuto. May começa quase como um romance estranho, mas logo deixa claro que a obsessão será o centro da narrativa (e que qualquer afeto já nasce contaminado).
No longa, acompanhamos May, uma jovem marcada por traumas, profundamente consciente de que o mundo a enxerga como “estranha”. Ela conversa com bonecas e se apega a objetos, com uma ótica peculiar sobre os outros à sua volta. Quando conhece um possível parceiro – surpresa de casting, por ser interpretado pelo mesmo ator de Frank de Donnie Darko – a conexão inicial surge justamente pelo gosto compartilhado pelo mórbido e pelo desconfortável. Porém, o que aproxima um do outro também é o que, aos poucos, começa a afastar.
O filme trabalha bem as metáforas de vício e desejo, especialmente através de elementos como cigarros e sexo. Não são cenas gratuitas, mas símbolos das vontades de May – aquilo que ela quer para si, suas aspirações de intimidade, confrontadas pelas frustrações, sobrepostas aos imprevistos que fogem completamente do seu controle. Existe um objetivo emocional claro (ainda que mal definido a nós), e é dessa tensão que o filme se alimenta.
Surpreendentemente, May também se permite questionar a sexualidade da protagonista, em situações que funcionam dramaticamente, mas que são propositalmente desconfortáveis. Nada é tratado com leveza: cada tentativa de conexão vem acompanhada do medo, da hesitação e da constante expectativa de rejeição. Fica cada vez mais claro que abrir-se emocionalmente, para May, sempre será um risco alto.
Quando isso falha, ela parte para técnicas nada convencionais de sedução. O filme passa a explorar o ciúme, sobretudo ligado ao contato físico, e os limites frágeis do que ainda é apenas “estranho” e do que já se torna “estranho demais”. À medida que a história avança, a atuação da protagonista se destaca cada vez mais. E é nessa progressão sutil, quase invisível, que o filme encontra sua força.
Com um tom muito característico do terror dos anos 2000 e referências claras a Frankenstein, a construção da personagem fica fácil de decodificar, sem jamais se tornar óbvia. Você até demora a entender a classificação +18, que se justifica menos pelo gore e mais pela perturbação psicológica e os contextos apresentados. A brutalidade existe, como esperado do subgênero, mas o peso real está nas ideias e no plano cuidadosamente escalonado.
E temos um ponto alto para o design de som, especialmente os ruídos de vidro, que aos poucos passam a assombrar May e funcionam quase como um gatilho sensorial da sua deterioração emocional – e de sua amizade igualmente frágil com a estranha boneca.
Em suma, May – Obsessão Assassina é sobre desejo, inadequação e solidão, mais interessado em incomodar do que em chocar visualmente. É terror íntimo, estranho e profundamente desconfortável… exatamente como a protagonista.

