A clássica história do jovem doutor que desafia a morte ganhou um “coração” novo nas mãos de Guillermo del Toro, que transforma o mito gótico numa fábula sobre empatia radical. Se A Forma da Água era o romance dos monstros, Frankenstein é o drama dos que os amam — um conto pra quem acredita que até a criação imperfeita merece uma dose de ternura.
Del Toro faz o que só ele consegue: transformar o horror em poesia visual. Cada capítulo tem sua cor predominante, cada sombra tem seu propósito, em uma evolução direta de seu grandioso feito de A Colina Escarlate. Há planos que parecem pintados, texturas que preenchem os olhos. Mas, quando lembramos que é um filme da Netflix, dói saber que ele mal foi visto nas telas de cinema.
O elenco entrega o impossível: Mia Goth está monumental (cheia de mistério, desespero), Jacob Elordi surpreende (neste papel intenso e emocionalmente devastador), Oscar Isaac se prova em seu longo tempo como protagonista. A maquiagem e os efeitos práticos são dignos de prêmios, sustentando a qualidade técnica impecável que del Toro zela: ao decorrer do longa, ele nos transporta a uma experiência que vacila entre o grotesco e o sagrado.
Em respeito merecido ao gênero de terror, Del Toro é capaz ainda de conduzir a violência com delicadeza. Ela nunca é gratuita, e sim simbólica, criando um reflexo nítido de quem a pratica. O terror é majoritariamente emocional, nas escolhas, nas perdas e na culpa de criar algo que não (se) pode amar o suficiente.
Como contraste à reimaginação recente de Nosferatu, Frankenstein é o terror mais doce que se pode imaginar. Um espetáculo sombrio, sobre o que significa ser humano, contado com toda a beleza e a melancolia que só Guillermo del Toro sabe construir.

