Enterre Seus Mortos

Terror psicológico, distopia rural e o peso da fé no fim do mundo. Enterre Seus Mortos, novo filme de Marco Dutra, parte de um livro homônimo e traz Selton Mello como um recolhedor de animais mortos, em uma pequena cidade do interior. Ao lado de peculiares colegas de trabalho, ele começa a desenvolver um relacionamento que, como tudo naquele lugar, se deteriora à medida que o mundo parece acabar. Há chuva de pedras, corpos (de humanos e animais), com uma sensação constante de decomposição.

Logo, entende-se que o apocalipse é somente o pano de fundo; o verdadeiro colapso é o da crença. A trama flerta com o fanatismo religioso, vide o personagem do padre ser um dos protagonistas, mas sem atacar uma fé específica: é uma fábula sobre o vazio, que surge quando a religião vira regra. Como uma fuga do que foi feito na obra original, lançado em 2018, agora a roupagem apocalíptica se fortalece na pandemia, período quando o filme foi rodado – diga-se de passagem, feito em menos de 6 semanas, segundo o diretor. Por conta disso, o filme carrega cicatrizes da época: solidão, isolamento e uma busca quase espiritual por um sentido. 

Dutra abraça o terror com um olhar quase poético, ainda mais que em seu “folclore urbano” de As Boas Maneiras, e o filme ganha força justamente por não se limitar ao susto: é um terror de culpa, de fé e de silêncio. Por criar esta nova religião, o diretor-roteirista ainda flerta com o tom de paródia humorada de baixo orçamento, cutucando inclusive quem usa da inteligência artificial para pintar um cenário que o favoreça.

Até por conta do humor ser um elemento surpresa, ter o envolvimento de Selton Mello foi um acerto curioso. Vindo da comédia, ele traz um humor seco e sombrio, um tipo de rotina cansada que contrasta com a brutalidade da história (e de todas as criaturas que encontra destroçadas pelo caminho). Pequenos momentos de ironia quebram o peso, ampliando a noção de desespero e da corrida contra o relógio, sentimento que permeia até a última cena.

Visualmente, Enterre Seus Mortos é carregado de texturas: terra, vísceras, pedra e vento. A câmera observa mais do que explica, como se o mundo estivesse apodrecendo aos poucos, nos transportando para uma atmosfera que quase se pode sentir o cheiro. Dutra transforma a melancolia do protagonista em algo autoral, que presta homenagem ao terror clássico americano (vide trilha sonora com notas de Ennio Morricone), sem perder o sotaque brasileiro.

Enterre Seus Mortos é um filme de fim de mundo, mas o que morre não é somente o planeta, e sim a fé, o amor e a sanidade. Sem sustos fáceis, terá seu lançamento tardio, ainda se firmando como um terror maduro, político e, acima de tudo, humano.