Garotos de Programa é um daqueles filmes que parecem existir em estado de deriva, como se a narrativa fosse guiada pela pura incerteza – e é justamente aí que está sua força. Gus Van Sant mistura Shakespeare, viagem na estrada e queer urbano num conto moderno de jovens perdidos entre a sobrevivência e o desejo.
River Phoenix entrega uma das atuações mais comoventes dos anos 90: Mike, o garoto de programa com narcolepsia, é também um retrato da vulnerabilidade. Ao lado dele, Keanu Reeves é Scott, ricaço em fuga de sua própria herança, seguro, mas igualmente à deriva. O contraste entre os dois concretiza a essência do filme: o amor impossível, fadado ao fracasso não pela falta de intensidade (pois a chama existe, sim), mas por um mundo que não dá espaço para que ele floresça. Afinal, a conta não bate: anos 90, queer, território americano.
A estética também contribui para a sensação de deslocamento. Lendo a respeito, descobri Garotos de Programa ser filmado sem lista de tomadas – ou seja, com a fotografia beirando a espontaneidade do dia de gravação. Por conta disso, o longa adota um ritmo errático, ainda com imagens icônicas (a estrada infinita, o rosto distorcido) e uma cadência digna de sonho profundo. Ele é vago e, ao mesmo tempo, muito específico: a “roça” americana, que vira metáfora para o desamparo existencial.
Há aqueles que critiquem os excessos de Van Sant (especialmente o segmento shakespeareano com a gangue de Bob), que é um devaneio, destoando do núcleo da história. Mas mesmo nessas quebras, entre a representação dos sonhos e pesadelos vividos por eles, o filme constrói uma lógica própria. Eles são “zé-ninguéns”, outsiders que ora inventam códigos almejando a noção de pertencimento. Você, espectador, ironicamente se sente ainda mais por fora do contexto, num espaço todo calcado na exclusão.
Mais que uma trama, o filme é uma expressão da vulnerabilidade: do amor não correspondido, de procurar o próprio lar em lugares que nunca serão seus, de perceber que se mudar geograficamente não é sinônimo de se mudar emocionalmente – você não foge das dores. É um filme melancólico, fragmentado e às vezes frustrante… e, justamente por isso, inesquecível.

