Como Treinar o Seu Dragão é um filme que responde a uma pergunta que ninguém fez: “e se a gente refizesse exatamente o filme de 2010, só que com pessoas reais e um dragão CGI?”.
A história é idêntica à animação original: Soluço conhece um dragão, o dragão é fofo, eles criam um laço de confiança, o vilarejo odeia dragões e, a partir daí, os dilemas começam. Todas as cenas deste live action seguem os mesmos enquadramentos da animação. As falas também são quase as mesmas — inclusive na dublagem brasileira, que manteve as vozes originais. É respeitoso? Talvez, mas parece muito mais um “receio de mudar” (e arriscar recepção negativa) do que qualquer coisa.
O problema não é nem o elenco, que até manda bem, e sim o conceito. A animação original ainda é tecnicamente linda, cheia de vida, com tal nível de coesão visual que o live action simplesmente não alcança. Aqui, Soluço é um ator; Banguela é uma bola de efeitos especiais. Você vê, a todo instante, que são elementos distintos, separados na fantasia criada pelo filme. A mágica da convivência entre humano e criatura se perde no processo.
Porém, em positivos: ele chega a ter um cuidado maior com os relacionamentos. Astrid tem um pouco mais de desenvolvimento, o núcleo de amigos ganha alguns segundos extras e o arco “pai e filho” tenta bater mais forte. Tem até um esforço bem-vindo em diversificar visualmente os personagens (e suas origens) sem forçar a barra, deixando a brecha para explorarem mais na futura sequência — vide a cicatriz do Soluço. Mas isso tudo parece um remendo. São pequenos ajustes numa estrutura que já era redonda.
Diferente de adaptações live action que reinventam ou aprofundam a história (como Cinderela ou até o filme da Cruella), aqui não há novidade, não há reimaginação, nem atualização geracional. Como Treinar o Seu Dragão de 2025 não é uma expansão, é um espelho. Só que mais cinza, mais frio, menos fluido e com dragões que, por mais bem renderizados que sejam, nunca parecem parte daquele mundo.

